Como aprendi a desenhar (e pintar).

Já me perguntaram isso algumas vezes e como eu sempre gostei muito de guardar meus desenhos desde criança, achei que daria um bom tema 🙂

No meu caso, como aprendi a desenhar fez muita diferença em como lidei com a ilustração durante a vida. E como faz parte da minha profissão, minha trajetória artística afetou muito minhas escolhas.

Sempre quis ser aquela pessoa que diz que desenha desde criança, não consegue ficar um dia sem rabiscar, tem seu próprio estilo e é ilustrador porque desenhou a vida inteira e adora o que faz. Pois é, comigo não aconteceu assim. Acho que seja porque sempre desenhei para satisfazer aos outros e não à mim, e por isso tive várias crises artísticas durante a vida e só agora estou conseguindo me encontrar. Como creio que muitas pessoas passam por uma situação parecida com a minha, e para os curiosos, hoje contarei como aprendi a desenhar.

Onde tudo começou…

Sabe quando perguntam pra qualquer ilustrador quando começou a desenhar e quase sempre respondem “desde que me conheço”, ou algo semelhante? Pois é, acho que essa resposta é clichê porque é a realidade da maioria das pessoas, ilustradores ou não. Nos primeiros anos de vida aprendemos a caminhar, falar, e também aprendemos a rabiscar. A diferença de quem sabe desenhar e quem não sabe, é que quem sabe é porque nunca parou, ou parou mas voltou a treinar. E então vem aquela velha história, “não é dom, é treino”. E é verdade, até porque “dom” não existe, o que sim existe é algumas pessoas terem mais facilidade do que as outras. O mais comum são os casos de crianças que tinham essa facilidade e por isso eram incentivadas a continuar, e também elas percebiam que tinham jeito pra coisa. Mas também têm aquelas que não eram “boas”, mas gostavam muito, e por isso continuavam, e com bastante persistência acabaram virando ótimos ilustradores.

Eu sou a criança que tinha facilidade. Isso me favoreceu e desfavoreceu por vários fatores que irei contando. Tenho pouca memória dos meus primeiros 5 anos de vida, mas lembro que eu gostava muito de desenhar na escola e algo que me marcou, foi desenhar junto com meu pai. Ele sabia desenhar (umas 5 coisas de cabeça, mas era bom de observação), e ele me ensinava o que sabia e ficávamos rabiscando juntos, acho que isso me influenciou muito a continuar.

Aos 5 ou 6 anos de idade minha família resolveu que eu podia começar a cursar aulas de desenho. No 1º dia a professora me deu um livro de ilustrações e pediu pra eu escolher uma e copiar. Esse pássaro no ninho foi minha primeira cópia.

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Digo “cópia”, porque nesse curso, que durou 3 anos, eu devo ter feito talvez mais de 100 desenhos e apenas uns 3 que eu pude ser livre e não copiar de algo pronto. Basicamente eu fui treinada para ser desenhista de observação.

A professora tinha uma didática bem clássica. Além do desenho, aprendi teoria da cor e pintar com outros materiais, como pastel seco. (7 anos de idade)

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A técnica de pintura que eu mais usava era lápis de cor aquarelável. Não sei se era escolha minha, porque lembro de ter bastante desgosto em pintar com lápis, até hoje acho meio que uma tortura (para pintar grandes áreas, detalhes acho legal!).

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A ilustração das joaninhas foi talvez aos 6 anos, as outras duas aos 7. Aprendi a usar o lápis de outras maneiras, criando texturas, como o caso das folhas da árvore do desenho dos cisnes. E lembro que a ilustração do buquê de rosas era meu maior orgulho.

Também aprendi sombra e luz e técnica de hachura. (7 anos de idade)

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Aprendi a pintar com canetinha e misturar várias técnicas de pintura (pastel+lápis de cor+canetinha).

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E aos 8 anos a professora finalmente disse que eu estava pronta para aprender pintura a óleo.

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Vendo esses resultados até eu achava que desenha muito bem, que tinha um grande talento. Porém, eu só era boa quando tinha algo para copiar. Isso me limitava e eu acabava não gostando dos desenhos que eu fazia sem referência.

Infância/Pré-adolescência.

Aos 9 anos comecei a frequentar um curso que era só de pintura a óleo. Eu aprendi muito sobre pintura e observação, mas o desenho livre continuava sendo deixado de lado.

Aos 11 ou 12 anos um amigo do meu pai que é artista plástico me ensinou aquarela. Inclusive o meu estojo da Winsor&Newton que aparece nas minhas fotos é dessa época!! Tinta de qualidade 😀 Hehehe. O que aconteceu foi que eu aprendi no papel errado, com os pincéis errados, e então me frustrei e não quis continuar tentando. Essa é uma das pinturas que fiz observando parte do meu quintal na época.

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Porém, tenho guardada uma pintura que fiz aos 12 ou 13 anos, que gosto muito, e foi totalmente livre, criada na base da memória. Quando eu estava na 7ª série, a escola levou a gente para visitar a Ilha do Campeche (é uma ilha que fica em Florianópolis e é bem paradisíaca). Era minha segunda vez lá, mas eu estava sem meus pais, e eu e um colega pegamos nossos óculos de natação e fomos nadando contornando a ilha, até chegar numa parte com corais. (Olha o perigo, hahahah). Foi uma das experiências mais emocionantes e bonitas da minha vida de adolescente e quando fui pra aula de pintura, quis retratar o que vi. A professora me deu a ideia de usar massa acrílica (acho que era isso) para criar textura no quadro na parte dos corais. Usei um pincel duro pra criar essas pontas.

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Adolescência.

Aos 14 anos fiz aula de desenho com uma menina do Design da UDESC, que tinha um estilo meio mangá, eu também tava entrando nessa fase e aprendi um pouco mais sobre anatomia e movimentos. Acho que talvez foi nessas aulas que aprendi a finalizar meus desenhos com caneta nanquim e usar a técnica de tirar vários xerox pra nunca pintar o original. Eu desenhava a lápis, depois passava o nanquim, apagava com a borracha o que restava do grafite, depois xerocava várias cópias e ia testando formas diferentes de pintura com lápis de cor.

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Por essa época eu já estava largando a pintura e me focando mais no desenho. Continuava tendo bastante dificuldade em criar algo sem copiar, mas eu tava empenhada em conseguir. Foi uma fase bem mangá e indo aos poucos para o realismo.

Aos 16 anos fiz alguns meses de aula de desenho com uma professora que focava no estilo japonês mesmo. Lembro que o mais valioso que aprendi foi a usar direito o lápis de cor para preenchimento e a técnica de usar corretivo para criar luzes na pintura.

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Faculdade.

Aí que começou a treta verdadeira. Se você se achava especial na escola, a faculdade te ensina que você é um zé ninguém, hahaha. Conheci muita gente talentosa na ilustração, o Photoshop apareceu na minha vida pela primeira vez e eu era bem ruim (Por que escolhi cursar Design??), etc etc. Mesmo assim continuei desenhando por minha conta mas cada vez com menos motivação. Como não sabia nada de nada de programas, fiz um curso de 3 meses no SENAC (acho!) de Photoshop e Corel Draw (risos). Mas com essa base consegui me virar pro resto do curso e posteriormente empregos de design e tal. Tudo que aprendi até hoje foi com tutoriais na internet e dicas de amigos.

Foi na 4ª fase (eu tinha 19 anos) que apareceu um professor que dava aula de Desenho de Personagem. No começo eu continuava frustrada e não conseguia soltar o traço. Tive uma crise existencial pesada nessa época, em que eu achava que desenhava só para que os outros gostassem de mim, que eu não tinha verdadeiro talento, devia largar a faculdade, etc etc. Quando saí do buraco comecei a desenhar o que me dava na telha. E foi aparecendo meu verdadeiro estilo, que o professor chamava de “ilustração para livros infantis”.

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Nessa aula sinto que reaprendi a desenhar. Não sei como, mas com poucas dicas e correções do professor, eu conseguia evoluir muito. Não precisava mais usar referências nem copiar outros desenhos. E eu só gostava de desenhar menininhas, hehe.

Com a ajuda de uma amiga e depois treinando bastante, aprendi a pintar no Photoshop. Resolvi arriscar e desenhar também personagens adultos, tudo durante essa disciplina.

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Aprendi sozinha a pintar no Illustrator. Mas não era muito minha praia, fiz poucas ilustrações vetoriais. (Minha época de estilo pin up, hehe)

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Também comecei a experimentar usar texturas no Photoshop… (Acho que essa é minha pintura favorita da minha época digital).

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Na 7ª fase (21 anos) tive aula de desenho de novo com esse professor, desta vez era Charge e Caricatura. Aprendi mais sobre expressões faciais e criar traços fortes e marcantes nos rostos, bem diferente do que eu estava acostumada a desenhar.

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Me arrisquei mais uma vez na pintura digital, tentando aplicar o que eu já sabia de pintura manual para o Photoshop, usando o brush mais comum que tem e as vezes aplicando no fundo  uma textura de parede ou papel (só sabia fazer isso, hehe). Ah, eu usava uma tablet da Bamboo Fun. (Alias, ainda uso a mesma, ela quebra um galho na minha vida cada vez menos digital).

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E creio que foi também na 7ª fase que tive minha primeira aula de Aquarela de verdade verdadeira! ❤ Descobri que no passado minhas tentativas foram um fracasso porque eu não usava os materiais adequados, nem sabia trabalhar com a água. Quando minhas pinturas começaram a dar certo vi que tinha descoberto minha técnica de pintura favorita ❤

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Aprendi todo o básico e depois fui treinando sozinha, vendo tutoriais na internet e observando outros artistas pintando.

No meu TCC fiz um livro infantil todo em aquarela, já falei sobre ele aqui. Isso foi em 2012 e eu já estava a um tempo sem desenhar, por isso meu traço já não está tão solto como antes.

Vida adulta.

Aos 22 anos (2012) comecei a trabalhar em uma empresa como Designer e tanto o desenho quanto a pintura foram deixados de lado. Mas acho que foi só quando tirei de mim a pressão de que deveria ser uma grande ilustradora e trabalhar com isso que consegui desenhar pra mim. Aí foi a época que criei a página da Matiza (2014) e tudo começou 🙂 Ainda estou buscando meu estilo, tentando lembrar por que eu gostava de desenhar quando criança… a ilustração ainda é algo não resolvido na minha vida, sorte que tenho a pintura para me acalmar. E dar aula está sendo muito mais divertido do que eu imaginava!

Como disse lá no começo de tudo, a forma que aprendi a desenhar influenciou bastante minha vida. Se eu não tivesse sido ensinada que o mais importante era retratar a realidade, talvez minha trajetória artística teria sido diferente. Minha luta cada dia é conseguir criar de maneira mais solta, espontânea, prazerosa, sem grandes cobranças, controle e pressão. Cada dia mais valorizo a arte abstrata, os desenhos nada realistas, o manual, o acaso. Claro que cada um tem seu estilo, e acho que está muito relacionado à personalidade de cada um. Eu apenas descobri que a forma que sempre desenhei não era eu, mas alguém que eu achava que tinha que ser. Ainda estou na busca… mas sinto que tô no caminho certo, desta vez a professora sou eu mesma 🙂

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